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Ninguém é dono do tempo

Tatiana e Deborah nunca haviam pensado em adoção, até o destino cruzar suas vidas

Passam das 20h e Camila Moraes Mesquita, de três anos, rola no berço tentando dormir. Pela babá eletrônica, Tatiana Mesquita e Silva, uma fisioterapeuta de 40 anos, pede para ela se aquietar e dormir. Deborah Gomes de Moraes, professora de educação física de 38 anos, trabalha à noite e está na rua. Pronto, agora podemos conversar. Desde novembro de 2017, quando Camila chegou, é assim: agitada na cama e ensinando que ninguém manda no tempo das coisas.


Juntas há sete anos, casadas desde 2015, Tatiana e Deborah não pensavam em ter filhos. “A gente viaja, vai para um lado, para o outro, trabalha pacas e chega uma hora na qual a maternidade bate”, conta Tatiana. A primeira tentativa foi por inseminação artificial, que não funcionou. “Ficamos decepcionadas, mas não quis tentar de novo. Entendi que não era desse jeito que seríamos mães”, relembra.


A adoção nem passava pela cabeça dela, que não tinha essa vivência na família. Foi Deborah, que tem primos adotados, que sugeriu e a convenceu. “Mil dúvidas tinha na cabeça”, lembra Tatiana. “Como vai ser? Com que idade? Como vai ser o processo? Minha família vai aceitar? Como vai ser essa criança? De que maneira minha vida vai ficar com essa criança que vai chegar? Vou escolher? O amor que sentirei não vai ser o mesmo? Muitas coisas passavam pela minha cabeça”, relembra.


Assim, Tatiana embarcou nessa “aventura materna”, primeiro nas reuniões de apoio indicadas pelo Fórum, que lhe abriram todo um mundo novo. Lá, entendeu o processo de adoção, como contar à criança sobre o processo e ouviu histórias de devolução, de amor irrestrito e sobre a situação familiar das crianças que chegam para adoção. Mais confiante e com perfeito entendimento de tudo que aconteceria, Tatiana se sentiu mais pronta para preencher a ficha e dar início ao processo, em janeiro de 2016. Habilitado em novembro do mesmo ano, o casal entrou na fila de adoção.


“Em paralelo, fomos tocando a vida”, lembra Tatiana. Sabendo que a espera costuma ser longa, ela se programou para a viagem anual que faz a trabalho para Boston, nos Estados Unidos, representando a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (ABrELA). A partida estava prevista para novembro de 2017. “Chegou 20 de outubro e o telefone tocou. A mensagem foi inesquecível: tem uma criança para você”, recorda.


No dia seguinte, elas estavam no Fórum para conhecer Camila, então com 1 ano e 8 meses. No mesmo dia, já faziam a primeira das visitas diárias realizadas ao Lalec. No dia 27, o casal já levava a menina para passear. E, quando foi no feriado de 2 de novembro, Camila já saiu da Lalec para ficar. Sem saber quando, gênero e com qual idade a criança viria, Tatiana e Deborah não tinham nem o quarto preparado A viagem aos Estados Unidos, aliás, acabou tendo valor inestimável, incluindo compras de enxoval. “Tudo demora e, de repente, é assim: as coisas acontecem de uma hora para outra”, lembra Tatiana.

Todas aquelas dúvidas foram sendo desfeitas aos poucos. No primeiro encontro, Tatiana congelou. “Nunca me esqueço disso. Desce a representante da Lalec com a Camila, que se encolhia. Fui me lembrando do que ouvia nas palestras: essa criança não te conhece. Eu, paralisada, e aquela linda pequena na minha frente”, conta.


Com grande presença de espírito, Deborah conseguiu “quebrar o gelo” do primeiro encontro. Com o celular em mãos, colocou na Galinha Pintadinha e começou a cantar. Camila prestou atenção, dançou e logo estava no colo. Nas visitas seguintes, a menina foi se aproximando aos poucos – e cada vez mais. Quando levaram a menina para passar um dia em casa, foram a um aniversário na família. “Ela fez festa, e era como se estivesse em casa. Na minha cabeça, vi que para a criança tudo é mais simples”, diz Tatiana. Os amigos ajudaram na montagem do quarto e do primeiro enxoval. A família acolheu e paparicou.


“E foi assim. O mais incrível disso tudo foi constatar que a frase é realmente verdadeira: amor é convivência. Veja bem, no começo você olha para a criança e ela não significa tudo aquilo que vai ser no futuro. Com a convivência no dia a dia, o amor surge naturalmente. Eu não tenho como comparar com o amor de um filho que nascesse da minha barriga, mas acho que é igual. Porque, hoje, ela é minha filha. Mudei minha vida por ela. Trabalho menos, mas com mais qualidade, porque volto para estar com ela todas as noites. Minha satisfação de maternidade é completa”, relata.


Camila também hoje pode ser outra. Ela, que tinha passado pelo Lalec duas vezes e era tida como uma criança fechada, hoje “fala, fala, fala”, segundo Tatiana. “Ela é uma criança muito feliz. Acorda rindo todos os dias. Acorda e canta, abraça e beija.” E tem lá sua vida de princesa. Gosta de andar vestida de Branca de Neve, e diz que vai ser bailarina. É a princesinha da vovó, que tem outros dois netos meninos. No aniversário de três anos, em 14 de fevereiro, Camila passou na Disney, com direito a jantar com outra princesa: Cinderela.

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