Memórias que fazem a ponte para uma nova vida

Memórias que fazem a ponte para uma nova vida

Menos de dois anos depois que Henrique veio ao mundo, nascia também a trajetória de Susiane Felix Casagrande Nishizawa e Robson Eleuterio Nishizawa como pais adotivos. O encontro deles, porém, só viria a acontecer após um ano e meio, em março de 2018. O casal já tentava ter filhos desde 2013 até que, depois de um aborto espontâneo, decidiram partir para a adoção. O processo teve suas turbulências.

“Entramos na fila no começo de 2017 e ficava ligando sempre para acompanhar”, conta Susiane. Nesta espera, ela chegou a engravidar naturalmente, tendo outro aborto espontâneo em novembro. “Estava de licença em casa quando me ligaram do fórum. Eram duas meninas, gêmeas. Agendaram um encontro e fui com bonecas para lá”, relembra. A psicóloga que coordenou esse primeiro encontro, no entanto, não estava informada da recente perda e suspendeu o processo.

“Fiquei frustrada com a adoção, foi horrível. Desliguei do assunto. Até que, no dia 13 de março de 2018, ligaram-me falando de um menino de um ano e cinco meses. Eu só disse ‘quero’ e fui com medo, sem expectativa. Contei só para a minha mãe. Mas daí em diante foi tudo do jeito que eu sonhei. Foi mais do que eu esperava”, conta Susiane. Ela não sabia, mas estava de volta à fila desde fevereiro, mesmo período em que Henrique foi para a adoção. “Tudo aconteceu assim porque tinha que ser ele”, acredita.

Enquanto isso, Henrique nasceu e foi do hospital para o Lar Amor Luz e Esperança da Criança (Lalec). No local, recebia visitas da genitora nos primeiros meses. Lá tomou sua primeira mamadeira, começou a andar, comeu bolacha, teve sua primeira festa de aniversário, chupou o dedo (mania que ainda mantém), fez amigos como João e Vitória, foi cuidado pela Sirlei e por muitas outras “tias”, brincou na terra.

Essa história, as manias e os acontecimentos que Susiane e Robson não puderam acompanhar de perto estão no delicado álbum que o Lalec produziu em parceria com o Instituto Fazendo História (IFH) e entregou ao casal no dia em que Henrique começou a etapa de vida no novo lar. A proposta do projeto é “ajudar meninos e meninas acolhidos a compreender, valorizar e criar uma versão própria para a sua trajetória de vida”, como consta na página do instituto.

O trabalho começa quando a criança chega ao Lalec. A partir dali, um voluntário treinado pelo IFH passa a conviver com ela uma vez por semana, construindo um vínculo, despertando conversas, incentivando a leitura, colhendo relatos, depoimentos, fotos, desenhos e criando o álbum de registros. “A criança vai tomando posse de si, construindo sua identidade. É parte do trabalho de individualização que tentamos fazer nos abrigos, uma vez que eles vivem em coletividade”, explica Ana Maria Silva, psicóloga do Lalec.

A parceria se iniciou em 2015 e, hoje, todas as crianças do Lalec participam do projeto. “O álbum também dá para a família acesso à história deles, que começa não quando saem do Lalec, mas quando entram, e isso ajuda na construção da nova relação”, avalia Ana Maria.
Susiane concorda.

“O álbum é lindo e me emociono toda vez que folheio. Aproxima a gente e vai servir agora para a vida inteira. Quando ele perguntar como era quando neném, tem aqui. Tem os amigos, com nome. Tem cartinhas das tias para ele. E tem a genitora, a quem eu sou muito grata”, conta. “Não quero passar uma imagem negativa dela para o Henrique e, no álbum, tem foto da visita dela dizendo ‘ela está fazendo de tudo para ficar com você’”, conta.

Susiane também construiu um segundo álbum de fotografias da “gestação do coração”, iniciado quando eles entraram na fila da adoção. “Tem as fotos nossas, pintando o quarto, nos preparando para recebê-lo. Vamos fazer a foto com ele para encerrar e mostrar como ele foi querido”, conta.

A nova família, agora, prepara a segunda festa de aniversário para o Henrique. “O tema vai ser dinossauros e ele está ‘todo-todo’.”

Fotos que contam também a história do Lalec

Há quase 20 anos, quando o Lalec foi fundado, Milene Neves Anjos da Silva era voluntária e também fazia um curso de fotografia. “Tinha uma câmera analógica e era preciso fazer um registro das crianças para o futuro, para elas poderem se ver, saber como eram”, conta. “Quando veio o digital, começamos a fazer CDs com as fotos para as mães adotivas. Era um pouquinho da parte que ela não viveu com a criança.” Nascia ali o embrião do projeto que hoje se amplia com o IFH.

Desde então, além do álbum, as famílias recebem uma coleção de outras fotos feitas pela Milene e voluntários. “Hoje, aquelas primeiras crianças estão com 20 anos, são adultos. Fico feliz de ter participado dessa história do Lalec, mesmo quando não havia ainda essa facilidade de poder fazer foto no celular”, declara Milene.